sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Abertura oficial do PoliCom-Identidade e produção cinematográfica latinoamericana

A programação oficial do III PoliCom teve início com a conferência "A produção audiovisual na América Latina", tendo como palestrantes a cineasta Natália Rueda, a psicanalista e cinéfila Marcela Antelo, o cineasta Paulo Alcântara e o coordenador do curso de Comunicação Social, professor Derval Gramacho. A discussão foi permeada pelos conceitos de identidade e cultura latinoamericanos, abordando principalmente a produção cinematográfica.



“A ótica do colonizador"


Um panorama geral da história da América Latina, desde 1836, foi apresentado pelo professor Derval Gramacho. Em seu discurso, que pode ser lido aqui na íntegra, foram apontados os problemas enfrentados ao longo desta trajetória histórica de colonização. Se a história do continente, cantado em verso e prosa, foi escrita pela ótica da cultura eurocêntrica, o professor destacou que os historiadores da contemporaneidade são os comunicadores sociais."Notadamente os jornalistas e os cineastas que constroem documentários e narram cotidianamente a história e trajetória da humanidade. A produção documental destes profissionais permitem a leitura mais clara e mais precisa desta história. Quem melhor, então, do que nós mesmos para assumir a narrativa da história da América Latina, isto é, da história das nossas vidas?", questionou.






“Estamos assistindo aos nossos filmes e ouvindo nossas músicas?”


A pergunta tem o objetivo claro de levar à reflexão. Feita por Natália Rueda à platéia, a resposta cabe a cada um de nós. O que temos visto, lido e escutado de nossos irmãos latinos? Rueda, que é colombiana, afirmou que só conheceu mais profundamente o seu país após realizar um sonho, o de vir ao Brasil. A viagem lhe deu o distanciamento exato para refletir sobre sua própria identidade. Para o evento, a cineasta trouxe a sua experiência documental, principalmente na área de música. Um dos filmes exibidos foi o curta “Welcome to Tumaco”, que ilustra o carnaval dos moradores desta região, abandonada pelos colombianos por ser uma localidade muito violenta.


Rueda ilustra as várias escalas de preconceito existentes dentro de cada país, de algumas regiões em relação a outras, e no sentido macro, que seria a discriminação entre continentes, para falar da importância de se fazer cinema. “É uma maneira de contar a nossa história aos que têm medo de vir até aqui”. E provocou a platéia com a pergunta: “Estamos assistindo aos nossos filmes e ouvindo nossas músicas?".


O cineasta Paulo Alcântara viveu uma experiência semelhante à de Natália Rueda. Também pelas andanças fora do Brasil pôde refletir mais sobre o seu país. Em Genebra realizou o documentário “O que é ser brasileiro” e percebeu que latinos, quando estão fora dos seus países, se aglutinam em guetos onde não existem brasileiros, cubanos ou argentinos, "em terras estranhas todos são latinos". Exaltou a riqueza de temática existente em países da America Latina que vai do trágico ao cômico e, às vezes, o trágico se torna cômico, exibindo o curta Lotação e o trailer do seu longa-metragem “Estranhos”.


Para Alcântara, mesmo com pouca verba, o Brasil tem conseguido fazer cinema. Ressaltou o papel do Governo Federal no incentivo à produção e destacou que lugares e pessoas que nunca haviam sido filmados, agora estão fazendo suas histórias. “O importante é o fortalecimento da nossa identidade. As pessoas se reconhecerem na tela”, argumentou.






A psicanalista e cinéfila argentina, professora Marcela Antelo diz que não pretende reforçar essa idéia de identidade e sim, livrar-se dela. Depois do primeiro impacto ela brinca, dizendo ser baiana também, para entrar em um assunto delicado: a forma como os latinoamericanos são estereotipados. “Somos os embaixadores do esculacho”. Mas, em seguida esclarece que o “esculacho” está por todo lado e não só ao sul do equador.


Antelo diz que o ideal seria que pudéssemos nos servir da política e do cinema para nos livrarmos dos rótulos. Ela relembra Glauber Rocha e de como ele definia o cinema como algo que “diz o ser” e não como uma mera ferramenta. De acordo com a cinéfila se o mapa-mundi for invertido, a América Latina assume o topo, destacando que é este o lugar que ela ocupa quando o assunto é produção cinematográfica.

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